Reproduzido da revista Brasil Engenharia, edição nº 11/2026
Artigo original de Letícia Barreto Preturlan, Silvia Giacobbe e Raimundo Ronaldo Batista Simões
Todo o conteúdo abaixo foi reproduzido integralmente conforme publicação original, com os devidos créditos aos autores e à revista.
A adoção do BIM no Metrô de São Paulo tem se consolidado como um avanço significativo na forma de projetar, construir e gerenciar as estações e demais empreendimentos da Companhia. No entanto, a transição de projetos desenvolvidos originalmente em 2D para um ambiente BIM, especialmente na fase executiva, impõe uma série de desafios técnicos e gerenciais.
O objeto deste artigo em questão, a contratação das Estações Boa Esperança, Jacu-Pêssego e o Pátio de Estacionamento Ragueb Chohfi, é um exemplo bastante contundente das questões que podem aparecer durante a fase de projeto executivo.
Os projetos básicos foram desenvolvidos em 2020 e o início do projeto executivo se deu em 2022. A primeira dificuldade percebida no início do processo é a não existência de informação modelada tridimensional e paramétrica no projeto básico.
O AutoCAD trabalha essencialmente com elementos bidimensionais (linhas, blocos, hachuras), enquanto o BIM se baseia em objetos inteligentes que carregam informações construtivas, materiais, parâmetros técnicos e propriedades construtivas ou relações entre ambientes e sistemas. Isso significa que o arquivo recebido em CAD não contém a “inteligência” necessária para alimentar o modelo BIM.
O processo de conversão, portanto, não é automático: é preciso construir o modelo do zero, interpretando as intenções de projeto a partir de desenhos 2D.

Isso exige, na prática, que o trabalho de modelagem comece em uma fase avançada da cadeia construtiva e a transposição de informações do 2D para o ambiente BIM com uma etapa de interpretação técnica gera uma quantidade de decisões que deveriam ter sido resolvidas em uma fase de concepção e que acabam recaindo sobre a fase executiva de detalhamento.
Essa reconstrução é, ao mesmo tempo, um exercício técnico e crítico. Ao refazer o projeto em BIM, inconsistências antes invisíveis aparecem: cotas que não batem, paredes desalinhadas, alturas incoerentes, além de divergências entre plantas, cortes e elevações. O modelo digital expõe os erros de forma mais evidente e força uma revisão do raciocínio projetual, além de, por consequência, sobrecarregar o tempo de andamento do projeto.
Uma particularidade deste contrato que deve ser levada em consideração é da necessidade de consolidação de outro projeto básico que tratou da adequação viária da Avenida Ragueb Chohfi, necessária para a implantação do sistema do monotrilho que corre pelo canteiro central.
Para a continuidade da Linha 15-Prata, nesta fase, com mais duas estações e um pátio de estacionamento, se fez necessário um ajuste no sistema viário para alargamento da avenida de forma que a configuração final seja a de duas pistas por sentido do tráfego, canteiro central que comporte a implantação dos pilares e ciclovia e passeios mínimos de 3 metros. Este projeto básico foi realizado a posteriori ao projeto básico das estações e acabou por criar uma exigência de adequação dos projetos, em especial no entorno imediato das estações.
Desta forma, a projetista recebeu o projeto básico correspondente e fez as adequações necessárias para todas as cotas de passeio e greide das vias. A entrada do acesso sul da Estação Jacu-Pêssego, por exemplo, cuja cota de nível é definida e fixada no projeto básico de arquitetura, trouxe diversos desafios de compatibilização ao projeto. Este “ponto duro” do projeto, com distâncias entre níveis que não podiam ser alteradas considerando a fabricação das escadas rolantes, aliado à topografia atual do terreno e as necessidades do projeto de adequação viária da avenida trouxeram ao projeto ajustes significativos na escadaria de acesso, em que as disciplinas de arquitetura, paisagismo, viário e a topografia/terraplenagem precisaram ser trabalhadas novamente, agora de forma integrada no modelo BIM.

estacionamento de trens
Outro exemplo digno de nota é que houve a necessidade de alterar a locação do Acesso Sul da Estação Boa Esperança, gerando uma reavaliação da projetista para o posicionamento deste e do Edifício Técnico Operacional (ETO). Foi realizada reunião de alinhamento e definição da locação a ser implantada, com avaliação das distâncias das edificações e seus lindeiros, garantindo o acesso técnico de caminhões na lateral do ETO.
A modelagem BIM auxiliou de forma significativa no reposicionamento das edificações, pois evidenciou todos os impactos nas respectivas disciplinas e as necessidades de correção e ajustes, o que poderia não se mostrar de forma tão transparente na adequação de projetos em 2D. Desta forma, foram evitados maiores problemas que poderiam ser detectados apenas no momento da execução.
Um ponto crítico do projeto em BIM na fase de projeto executivo que devemos salientar é a necessidade de compatibilização prévia que não acontece de forma plena. Em projetos 2D, é comum que disciplinas (arquitetura, estrutura, instalações e outros sistemas) trabalhem de forma menos integrada, o que dificulta a detecção de interferências. Ao migrar para o BIM, essas falhas tornam-se mais evidentes e exigem correções que não estavam previstas no escopo inicial, demandando mais tempo para a fase executiva do projeto.
Usualmente, os projetos de sistemas na fase de projeto básico são desenvolvidos de uma forma conceitual e generalista e não necessariamente é previsto o caminhamento 2D exato dos cabeamentos.
Desta forma, a fase de projeto executivo inclui uma fase bastante importante de compatibilização e interface entre as disciplinas de civil e os diversos sistemas necessários para o funcionamento das estações e pátio.
Além disso, vale destacar que este contrato tem outras particularidades de interface com outros projetos e contratos. Além do contrato das estações e do pátio e a adequação viária tratada anteriormente, também é necessário destacar a existência de outros contratos que acontecem de forma simultânea, como o contrato da via que, na sua assinatura em meados de 2010, foi definido integralmente em 2D.

ocupados
Quando apenas parte das disciplinas do contrato são desenvolvidas em BIM, e outras permanecem em formatos tradicionais (2D ou AutoCAD), a comunicação entre os modelos se torna deficiente. A ausência de modelos tridimensionais e parametrizados dessas disciplinas impossibilita a detecção automática de interferências (clash detection), um dos principais benefícios do BIM.
Essa fragmentação entre formatos de projeto cria zonas de incerteza e exige um esforço extra de coordenação manual, enfraquecendo justamente uma das propostas centrais do BIM: a integração total entre as áreas do projeto.
Essa deficiência de informação modelada foi parcialmente sanada com a premissa de inserção de alguns elementos de outros contratos serem apresentados na disciplina de arquitetura – escadas rolantes, elevadores e portas de plataforma, além das vigas-guia da via do monotrilho no trecho da estação. Contudo, ao detectar necessidades de alteração nestes projetos, a interface é dificultada pois os projetos se encontram em formatos diferentes, demandando transformações de modelo em desenhos e vice-versa.
No Pátio Ragueb Chohfi, a dificuldade de visualização do empreendimento de forma integrada tornou necessária a modelagem de elementos do contrato da via em modelo apartado, para ser federado com os demais modelos que são escopo do contrato em questão. A integração entre os modelos e projetos 2D, se não tratada de forma cautelosa e adequada, pode ser comprometida, exigindo retrabalho e soluções manuais para problemas que poderiam ser evitados com uma abordagem colaborativa desde o início.
Alguns elementos que não estavam previstos em contrato também foram modelados pela empresa contratada por iniciativa própria, justamente por enxergarem os benefícios da integração das informações: o gabarito dos trens na região do estacionamento no Pátio Ragueb Chohfi foi modelado para que se pudesse enxergar áreas de possíveis conflitos com passarelas de serviço e limpeza dos trens.
Portanto, embora o uso do BIM na fase executiva traga benefícios como melhor visualização, extração automática de quantitativos, simulações e compatibilização de sistemas, sua eficácia pode ser comprometida quando o projeto básico ou demais projetos executivos não foram concebidos dentro dos mesmos processos e metodologias.
Para alcançar todo o potencial do BIM, é fundamental que a modelagem seja adotada desde as etapas iniciais do projeto, promovendo integração, coerência de dados e maior eficiência ao longo de todo o ciclo de vida da edificação.
Entendendo as dificuldades do andamento do projeto e suas consequências ao contrato e futuro andamento da obra, foram colocadas algumas estratégias de contornar as dificuldades durante o curso do projeto: além de reuniões técnicas semanais para esclarecimento de dúvidas e acompanhamento, foram também realizadas Sessões ICE – uma técnica desenvolvida pelo Jet Propulsion Laboratory da NASA que consiste em colocar todas as equipes técnicas com poder de decisão, seja das empresas contratadas como o contratante e as equipes de apoio técnico para análise, em uma mesma sala para a análise conjunta do modelo virtual do projeto de forma a fazer uma verificação de sua consistência, construtibilidade e compatibilização entre disciplinas.
A sigla ICE se refere a Integrated Concurrent Engineering ou Engenharia Concorrente Integrada em português.
O objetivo principal dessa técnica é tomar decisões de projeto em tempo real, evitando longos ciclos de troca de informações, revisões e retrabalhos, que são problemas típicos dos processos tradicionais baseados em trocas sequenciais de arquivos e comunicação fragmentada.
A abordagem com plano de ataque definido com metas claras e mensuráveis e a organização para que todas as partes interessadas sejam envolvidas em tempo real facilitaram a integração entre os agentes para a resolução dos temas de forma rápida e coesa.
As sessões ICE, que aconteceram nos meses de julho e agosto de 2024, tiveram resultado satisfatório: para o Pátio Ragueb Chohfi, em um único dia, conseguimos consolidar e resolver 101 itens que estavam em aberto. De forma semelhante, para a estação Jacu-Pêssego foram 103 questões pendentes (issues) e para a estação Boa Esperança foram 147. Esses valores representam, por exemplo, um acréscimo de 6% da totalidade dos issues atendidos e fechados do Pátio Ragueb Chohfi.
O desenvolvimento do projeto executivo deste contrato com suas particularidades, ao deixar evidente todos os desafios da compatibilização e adequação das concepções provenientes dos projetos básicos, mostra de forma clara o quão relevante e indispensável o desenvolvimento em BIM se torna, seja pela qualidade de projeto ou pela minimização das dificuldades em obra.
Para que a compatibilização entre projetos seja efetiva, o maior número possível de disciplinas deve ser contemplado na modelagem.
Fica clara, então, a necessidade de adoção do BIM em todas as etapas de desenvolvimento do projeto, seja nas fases iniciais de concepção, como o planejamento adequado e a integração entre projetos e contratos.
Para que seja construída uma efetiva mudança que abraça a integração plena, o BIM se coloca como ferramenta essencial para garantir maior previsibilidade, redução de erros e otimização de recursos, resultando em empreendimentos mais eficientes, sustentáveis e de maior qualidade.
Por isso, é fundamental que o projeto já nasça em ambiente BIM, desde o estudo preliminar. Só assim é possível aproveitar todo o potencial do processo – a integração entre disciplinas, a análise de desempenho, a compatibilização em tempo real e a geração automática de quantitativos e documentação.
Quando o processo começa no BIM, o trabalho deixa de ser uma mera tradução de linhas e passa a ser uma construção de conhecimento, colaborativa e inteligente.
O futuro do projeto executivo começa na base do processo, e essa base precisa ser digital, integrada e informada.
Em outras palavras: o BIM não deve ser o destino do projeto, mas o seu ponto de partida.




